sexta-feira, 27 de junho de 2008

Antena Musical -- Funk como Le Gusta

Tem gente que só associa a influencia negra na música brasileira a ritmos como samba.

Não é bem assim.

O swing da turma de pele escura também inspirou outros estilos musicais ( genuinamente e não genuinamente brasileiros)

O Funk é um desses casos.

Criado nos Estados Unidos em meados dos anos trinta, a palavra Funk surgiu como um adjetivo que descrevia uma maneira de tocar mais lenta, solta e principalmente mais dançante.

- Now, put some stank funk on it!", (algo como "coloque mais 'funk' nisso!") diziam os jazzistas daquela época.

Mais tarde esse "jeito de tocar" cresceu, emancipou-se e se tornou ritmo próprio.

O FUNK NO BRASIL
No ínicio dos anos 70, o Funk desembarca em solo brasileiro, mais fortemente no Rio de Janeiro.

"De braços abertos sobre a Guanabara" o ritmo sobe os morros cariocas e ganha características particulares, ligadas a cultura e a malandragem carioca. (Características negras, principalmente)

O Som fica mais "malemolente" e percussivo.

- Coisa de "cão vira-lata" que nem a gente.

Tim Maia, Sandra de Sá, Banda Back Rio são os grandes representantes do Funk Brazuca dessa época.

Mas o Funk que me chamou atenção foi o de uma turma mais nova: o Funk como le gusta.


No meio dessa sexualidade exagerada que virou o funk nos anos 2000, os caras resgataram o que o ritmo tem de melhor; esse jeito mais lento, solto e principalmente mais dançante de tocar. Nada haver com o créu.


Fica mais claro ouvindo.


terça-feira, 24 de junho de 2008

Morte e Preconceito

Nesses últimos dias a veiculação de duas notícias me chamaram atenção.

MORTES NO PARÁ
A primeira diz respeito a um hospital público do Pará que resgistrou as mortes de doze crianças em um único fim de semana (leia matéria completa).

A explicação para tragédia: fatalidade.

Segundo a direção do hospital "O número de óbitos está de acordo com a taxa aceita pela OMS, cerca de 50%, do total de leitos da unidade".

Pelo amor de Deus!

Doze mortes em um único fim de semana pode ser tudo menos coincidência estatística. E mesmo que fosse, maldito de um gestor público que acha "normal" perder duas dúzias de vidas em menos de 72h.

No meu dicionário isso tem outro nome (na verdade, outros nomes): incopetência, irresposabilidade, ingerência, inaptdão.

Declarações como essas da diretoria do hospital paraense só reforçam o descrétito que os brasileiros têm para com seus gestores públicos, em especial os gestores da saúde.

PRECONCEITO NEGRO NOS EUA
A segunda notícia é internacional. Ela diz respeito ao preconceito racial americano.

Só agora, um mês depois que Barack Obama conquistou a indicação democrata nas eleições presidenciais deste ano, é que estão conseguindo avaliar o impacto da rejeição da questão racial no pleito.

Uma pesquisa divulgada essa semana dá conta que 30% dos eleitores dos EUA não gosta de Obama pelo fato dele ter a pele escura.


Trocando em miúdos, três entre dez americanos tem preconceito com pessoas de outras raças.

O índice é por sí só já é alto, e piora, quando leva-se em consideração a escolaridade média do americano que é relativamente alta.

Ou seja, não é falta de informação. É preconceito puro.

Se pele determinasse caráter, coitado de Bush!

domingo, 22 de junho de 2008

Antena Musical - Grávida

Eu tô grávido!!!

Calma! não é no sentido literal - e natural - da palavra(é claro). Isso ainda é humanamente impossível.

(Que pena! tenho para mim que a oportunidade de gerar uma vida dentro de sí é uma das 8 maravilhas do mundo.)

Nesse caso trata-se apenas da mágica que é poder reinventar os sentidos das palavras. Metáfora.

AMIGO É DE CASA
Essa semana estava escutando o disco ao vivo que Zélia Duncan e Simone gravaram no Ibirapuera em outubro do ano passado (um grande disco diga-se de passagem), - leia mais sobre o cd - e diante da quantidadade de sentidos que o compositor, Arnaldo Antunes, arranjou para a palavra "Grávida" - uma das músicas interpretada pelas duas e originalmente gravada por Marina Lima - também engravidei.

Explico: tô grávido, pois tenho gestado (e essa palavra descreve precisamente o processo sobre o qual eu estou falando) muitas déias, conceitos e atitudes. Algumas delas compartilho com vocês aqui no blog.

Esse ato de "engravidar", está sempre impregnado da sanidade que me é peculiar.

Alías essa caracteristica, atualmente, tem sido minha benção e meu fardo.

Coisas da vida!!!

Vamos à música, que é o que importa agora!

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Grávida
Arnaldo Antunes


Eu tô grávida
Grávida de um beija-flor
Grávida de terra
De um liquidificador
E vou parir
Um terremoto, uma bomba, uma cor
Uma locomotiva a vapor
Um corredor

Eu tô grávida
Esperando um avião
Cada vez mais grávida
Estou grávida de chão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Dar à luz

Eu tô grávida
De uma nota musical
De um automóvel
De uma árvore de Natal
E vou parir
Uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional
Um cartão postal

Eu tô grávida
Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Vou dar a luz


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segunda-feira, 16 de junho de 2008

Abre o olho moçada!

Em tempos de pré-campanha eleitoral, tenho amadurecido uma constatação preocupante:

- uma parcela significativa (para não dizer a maioria) dos jovens entre 20 e 25 anos, não tem a mínima noção da importância da política em suas vidas -

Como prova do que digo, proponho um teste: quantas pessoas, com o perfil citado no parágrafo acima, se lembram do voto da última eleição (2006) que elegeu presidente, governador, senador, deputados federais e estaduais? (quantos lembram que tiveram que votar para todos esses cargos?)

Se 50% das pessoas entre 20 e 25 anos que leram esse texto responderem corretamente essa pergunta, eu tô satisfeito.

Não pretendo achar explicações para esse descompromisso, elas existem aos montes; o escândalo do uso indevido dos cartões corporativos pelos Governos Federais, a descoberta de esquemas de tráfico de influência de pessoas ligadas ao governo – leia-se propina - na contratação de serviços de saúde são apenas alguns dos exemplos que aparecem todo dia no jornal.

Mas sou da turma que gosta de agir, não de reclamar.

Se liga, galera!

Pense comigo, se o futuro de uma sociedade que, quando jovem, não leva política a sério já é complicado imagine o futuro de uma sociedade que, quando jovem, faz de conta que a política não existe.

Falar de assuntos como violência, sexo, festas, música, namoros, novelas, birita, celular, filmes é ótimo, mas prestar atenção no que acontece à sua volta e tem conseqüência direta na sua vida é IMPRESCIDÍVEL. (sim; prestar atenção no que acontece a sua volta é sim uma atitude política)

É quase um dever de casa.

Podem dizer que é cafona, piegas, retrógrado e o escambau, mas juro que preferia quando falavam - e a agente acreditava - que os jovens eram o futuro da Brasil; pelo menos havia uma implicação. Hoje em dia, nem isso.

Tenho impressão de que nem essa história de “comprar” comportamentos e modos de agir e pensar, que faz muito sucesso com essa minha turma, rola quando o tema é política. Neste caso o diagnóstico é dormência total.

E ao contrário do que dizem pensar e agir políticamente não é difícil.

Basta prestar atenção em coisas que dizem respeito à coletividade como, por exemplo, a regularidade da coleta de lixo do seu bairro, os gastos dos parlamentares que você elegeu (sim, eles são obrigados a divulgar esses gastos!).

Estar bem informado sobre o mundo ao redor, que não seja o seu particular, já é um bom começo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Antena Musical - Daniela Mercury

No Antena Musical da semana passada, falei sobre uma das minhas paixões musicais, Elis Regina; no desta semana, vou falar sobre outra: Daniela Mercury.

Daniela Mercuri (o “y” veio depois) de Almeida surgiu no cenário da música brasileira no inicio da década de 90, mais precisamente entre 1992 e 1993.

Misturando ritmos e toadas afrobaianas com coreografias acrobáticas e um conceito de show-espetáculo, foi uma das percussoras de um gênero músical que até hoje “dá muito o que falar”: o axé music.

Até a metade da década de 90, Daniela Mercury fez muito sucesso no Brasil e alguns países da América Latina como Argentina e Chile, vendendo milhões de discos. Em alguns desses países é recorde de público e vendas até hoje. Atualmente, tem uma projeção menor quando comparada a outras cantoras de axé como Ivete Sangalo e Cláudia Leitte.

Mas Daniela Mercury nunca foi unanimidade nem mesmo no auge da popularidade ou dentro do axé, estilo que ajudou a difundir e onde é considerada "rainha".

EXPLICAÇÕES/MOTIVOS
- Quem gosta de axé e não gosta de Daniela costuma dizer que seu trabalho é “cabeça” demais ou arranja motivos pessoais para não gostar dela.

- Quem não gosta nem de um nem de outro, geralmente, taxa Daniela de presunçosa (ou perdida) por causa da quantidade de referências e linguagens estéticas presentes nos seu trabalho; e o axé de medíocre, principalmente, por causa da forte ligação do estilo com o carnaval e a falta de comprometimento com conteúdo semântico e/ou seriedade das letras.

- Quem só gosta de um ou de outro vive tentando separar as duas coisas.

- E quem gosta dos dois, como eu, na maioria das vezes, ganha a pecha de eclético (no mal sentido da palavra) sendo visto como uma pessoa sem critério musical; capaz de gostar de tudo. (Eu considero isso uma virtude. Tem gente que acha falta de personalidade)

Eu compreendo.

A arte de Daniela não se encaixa facilmente em nenhum rótulo. É tudo e é nada; é isso e é aquilo; simultaneamente.

Sua discografia inclui gravações de sambas, ijexás, merengues, rap, bossa-nova, manguebeat, musica eletrônica, clássica, jazz, soul, rock, MPB, R&B, musicas em espanhol, japonês, inglês, canções de Lenine, Chico César, Vanessa da Mata, Herbert Viana, Marcelo Yuca, Vinicius de Morais, Ary Barroso, Jorge Benjor, Roberto Carlos, Carlinhos Brown, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Adriana Calcanhoto, composições próprias, etc, etc, etc.

Essa versatilidade faz com que pessoas como eu, que gostam do trabalho Daniela Mercury percam um tempo danado justificando suas escolhas musicais.

Á aqueles que vivem a me pedir explicações ou a me olhar com rabo do olho, proponho um desafio:

1 - Você que não gosta nem de axé e nem de Daniela, tente colocar de lado o pré-conceito e escute essa canção composta por Lenine especialmente para La Mercury. Talvez você entenda o que ela pretende com a Música (assim mesmo com M maiúsculo).

2 - Você que gosta de axé, mas não de Daniela, assita o vídeo e me responda se é possível não sentir minimamento tentado a sair pulando de alegria, como em época ou festa de carnaval.

3 – Você que só gosta de um dos dois, escute a música e veja o vídeo e ao invés de catar diferenças tente achar intercessões.

4 - Aos outros, aproveitem.

Sou De Qualquer Lugar
Lenine



Trio Metal e Rapunzel

sábado, 7 de junho de 2008

Sim, nós (também) podemos

Acabei de assistir pela televisão o pronunciamento de Hillary Clinton desistindo da indicação democrata nas eleições á presidência dos Estados Unidos deste ano.

O vitorioso do round inicial dessa guerra foi o atual senador Barack Obama; um afro-descendente com parentes no oriente médio (e com um Hussein no nome), que será o primeiro candidato negro à presidência dos Estados Unidos indicado por um partido grande; o partido Democrata.

HILLARY CLINTON
Confesso que sempre tive mais simpatia pela candidatura de Hillary.

Gosto da idéia muito mais pelo fato da ex-primeira dama ser uma mulher do que por qualquer outra virtude política que ela tenha.

Achava (e ainda acho) que é hora de uma grande nação mundial experimentar um governo com uma perspectiva política diferente; um governo feminino; sensível, preocupado e comprometido em equilibrar a existência humana com os recursos naturais da Terra, preocupado com o nosso futuro.

Coisa de mulher, coisa de mãe.

BARACK OBAMA
Mas quem ficou com a indicação do partido democrata e vai disputar a presidência dos EUA foi Barack Obama.

Obama é aquilo que se pode chamar de fenômeno político.

Passou, em menos de um ano, de Senador de atuação discreta (mas contundente), á grande articulador político, conquistando apoio de grandes nomes da política americana e mais de 20 milhões de votos em uma prévia eleitoral.

Ainda sim sua melhor qualidade foi ter conseguido levar esperança (e espírito de mudança – quem diria) a uma nação americana desacreditada, frustrada diante de uma administração desastrosa que endividou os cofres públicos e gera uma recessão econômica poucas vezes vista na história daquele país.

Tudo isso sendo negro, num país em que a cor da pele determina muita coisa.

Não consigo lembrar de ter visto os americanos tão engajados como agora. A prova disso é que o número de voluntários e votos nessas prévias eleitorais foi recorde.

INSPIRAÇÃO
Tomara que essa vontade de mudar embale e inspire a política brasileira. Tomara que o povo desse país de bandeira verde e amarela lembre que, sim, nós também podemos.

Podemos fazer um país melhor; um país mais justo; mais desenvolvido; mais honesto, mais, mais e mais.

Matéria prima por aqui não falta.

Veja o vídeo da campanha de Obama
chamado Yes, We Can

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Antena Musical - Olhos Abertos

Todo mundo que me conheçe, pelo menos um poquinho, sabe que uma das minhas paixões musicais responde (ou respondia) pelo nome de Elis Regina de Carvalho Costa.

Nesse Antena musical vou mostrar uma jóia rara (e quase desconhecida) do seu repertório.

Trata-se de uma canção de Zé Rodrix (saiba mais sobre Zé Rodrix) e Guttemberg Guarabira chamada Olhos Abertos, gravada pela "Pimentinha" em 1972 (confira discografia completa de Elis), num dos seus melhores discos.

O grande "lance" de Olhos Abertos é a leveza que a canção apresenta; tão incomum as interpretações de Elis, normalmente muio densas.

Não se trata de uma leveza boba, associada a infertilidade musical, mas sim uma leveza espiritual, madura; parecida com aquela que se sente quando está de bom-humor; de bem com a vida.

Difícil explicar; melhor sentir!!




Olhos Abertos
Zé Rodrix / Guttenberg Guarabyra


Atravessando uma ponte de noite, no meio da chuva
Cercada pelo silêncio daquela cidade do interior
Depois da ponte uma estrada de terra, molhada pela chuva
Cercada pelo silêncio e sem nenhum pedaço de amor

Vendo os olhares desertos de tantas pessoas antigas
Tantas pessoas amigas querendo um cigarro e um carinho
Gente que puxa uma briga na estrada, com os olhos brilhando
Precisa só de um abraço, bem forte e bem dado

E eu quero encontrar as pessoas
De mãos e olhos abertos
Sem me preocupar com dinheiro e posição

Eu preciso encontrar as pessoas
Ficar de mãos dadas com elas
Conversar com a boca e os olhos do coração