Não sou fã desse discurso que junta vida e futuro com predestinação e/ou destino. Gosto de pensar no dia-a-dia (e mesmo no amanhã) como algo sólido, palpável. Besteira. Tudo apenas uma maneira de me sentir melhor; de levar a vida de uma forma mais agradável.
O OUTRO LADO DA MOEDA Ironicamente, logo depois de escrever um texto contando a saga feliz de um amor entre dois velhinhos, que resolvem assumir um romance já nos idos da vida, mas que tem a morte como um dos personagem principais (leia o texto na íntegra), fiquei tête-à-tête com a outro lado da história; pude ver de perto a morte como sinônimo de tristeza. Fui ao velório do avô de um amigo.
Antes de qualquer coisa, minha presença naquele momento, mais que um gesto de intimidade com o morto, foi um gesto de solidariedade ao meu amigo.
- Sei a importância de ser apoiado quando as pernas tremem e o espírito vacila.
MORTE E PERDA De todas as formas possíveis, encarar a morte é encarar uma perda. Mesmo quando se tem motivos para desejá-la, alguma coisa de humanidade se perde no processo. Quando existe afeto, a coisa ainda é pior.
- Será que existe alguma maneira sutil enterrar alguém? Será que é possível estar feliz quando a memória nos faz reféns de boas lembranças ?
Não sei responder. Nunca vivi isso. E só presenciei algo parecido quando muito novo. Mas não era gente ainda. Era criança, e criança, principalmente quando muito nova, é quase anjo, e anjo não teme a morte. Anjo é imortal.
Conversa de Botas Batidas, é uma das melhores canções do disco Ventura (2003) dos Los Hermanos. O autor da letra é Marcelo Camelo.
O texto é baseado em uma história real. A historia de um casal que se reencontra na velhice, decidindo assumir uma paixão juvenil.
Com medo de serem julgados, eles começam a se encontrar, às escondidas, num hotel.
Certo dia esse hotel, começa a desabar. Antes do desastre, um dos funcionários do hotel tenta salvar dos dois, batendo na porta do quarto, mas eles não abrem.
Não se sabe se eles estavam dormindo ou se preferiram morrer, ali, juntos, sem ter que esconder mais de ninguém aquele amor.
Marcelo (inteligentemente) preferiu a segunda versão. Fez uma canção simulando uma conversa entre os dois antes do momento final. O engraçado é que a música não fala de mágoa nem de rancor. A morte não soa pesada. Pelo contrário ela é cenário para atuação do artista principal: o amor.
O resultado é esse aí!
Conversa De Botas Batidas Marcelo Camelo
- Veja você onde é que o barco foi desaguar - a gente só queria o amor... - Deus parece às vezes se esquecer - ai, não fala isso, por favor Esse é só o começo do fim da nossa vida Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida que a gente vai passar - Veja você, onde é que tudo foi desabar A gente corre pra se esconder... - E se amar, se amar até o fim - sem saber que o fim já vai chegar Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar
Abre a janela agora, deixa que o sol te veja É só lembrar que o amor é tão maior que estamos sós no céu Abre as cortinas pra mim que eu não me escondo de ninguém O amor já desvendou nosso lugar e agora está de bem
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar
Diz, quem é maior que o amor? Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora Vem, vamos além. Vão dizer que a vida é passageira Sem notar que a nossa estrela vai cair
Se eu pudesse escolher uma imagem para ilustrar o atual momento da política do Rio Grande do Norte, em especial a de Natal, essa imagem seria uma Montanha Russa.
Nunca, em sua história recente, os potiguares viram uma pré-temporada eleitoral tão animada.
O ano ainda nem chegou na metade e o noticiário político da cidade já foi tomado por manchetes anunciando alianças políticas improváveis, ex-inimigos juntos em prol de uma candidatura de terceiros, acordos locais costurados em outros estados, picos de pressão, etc, etc, etc.
No entanto esse sobe e desce de emoções (e interesses) esconde um perigo real. O perigo de que a discussão sobre o crescimento sustentável da capital potiguar fique em segundo plano.
PROBLEMAS REAIS X DISCUSSÃO PRAGMÁTICA Natal vive um momento cautelar. A cidade, que até pouquíssimo tempo se gabava da qualidade e estilo de vida de seus habitantes, nos últimos anos, por causa do desenvolvimento de seu potencial urbano, começa a sofrer os problemas das grandes metrópoles brasileiras.
O trânsito está um caos, o abastecimento de água potável está comprometido, o meio ambiente e o ar estão em risco, os depósitos públicos de lixo estão operando perto da capacidade máxima, só para citar alguns dos itens da lista de problemas que ainda engloba questões relativas a segurança pública, saúde, educação e moradia.
O mais grave: a tendência é piorar.
Se esses assuntos não forem tratados agora (e de forma séria), nós, natalenses, corremos o risco de, muito em breve, vivermos - para parafrasear meu colega blogueiro Marcelo Tas (visite o blog de Marcelo) - em um “gigantesco monstro devorador de gente e tempo”.
CRESCIMENTO URBANO X QUALIDADE DE VIDA Não é impossível crescer e manter a qualidade de vida. Taí Paris, Londres, Amsterdã, e - mais por aqui por perto -, Curitiba e Florianópolis, que não me deixam mentir. Mas isso exige planejamento e comprometimento público.
Nosso Edis têm que saber disso!
Mais ainda. Essa tem que ser a tônica da discussão eleitoral deste ano, sob a pena de perdemos o que Natal têm de melhor; a certeza de que vivemos em uma cidade onde notícias como a morte de uma menina de seis anos atirada pela janela, a queda de um avião de passageiros no perímetro urbano e engarrafamentos de centenas de quilômetros sejam coisas que acontecem bem longe da nossa porta.
Agora além dos textos opinativos - que vão continuar pintando por aqui com a mesma regularidade de sempre - periodicamente, eu também vou postar letras, vídeos, áudios e impressões sobre músicas que ando escutando.
É uma tentativa de tirar um pouco do "som que tem na minha cabeça".
Espero que vocês se divirtam e participem da brincadeira.
ESTRÉIA Escolhi inaugurar o espaço falando de dois sambas que não saem do meu player há mais de 4 meses; Samba Meu, e O Homem Falou, ambos gravados por Maria Rita em seu último disco, Samba Meu (2007).
NOVOS TALENTOS Samba Meu, de Rodrigo Bitencourt (veja o myspace de Rodrigo), é um samba leve, delicado e honesto que até pouco tempo eu não conhecia. É um dos achados do repertório de Maria Rita, que desde o primeiro disco tem aberto espaço para composições de artistas dessa nova geração com ótimo trabalho e pouco espaço na mídia como Rodrigo Maranhão, Cláudio Lins, Fred Martins entre outros.
Samba Meu O meu samba vai curar teu abandono O meu samba vai te acordar do sono Meu samba não quer ver você tão triste Meu samba vai curar a dor que existe Meu samba vai fazer ela dançar É o samba certo pra você cantar
O meu samba é de vida e não de morte Meu samba vem pra cá e traz a sorte E celebra tudo o que é bonito Meu samba não despreza o esquisito Meu Samba vai tocar no infinito Meu Samba é de bossa e não de grito
Meu Samba, defendi com alegria Deixe que a noite vadia Vai saber lhe coroar Deixo entregue aos bambas de verdade Que estão nos morros da cidade Peço a benção pra passar Deixo entregue aos bambas de verdade Que estão nos morros da cidade Peço a benção pra passar
Escute a canção
TALENTO RECONHECIDO, MÚSICA NEM TANTO A segunda canção, O Homem Falou, é uma das canções mais injustiçadas do repertório do mestre Gonzaguinha. Sua letra traduz, com o bom humor, inteligência e sagacidade que só um compositor moleque como Gonzaguinha conseguia ter, a empolgação da preparação de um desfile de carnaval.
Uma obra prima!
O Homem Falou Pode chegar Que a festa vai É começar agora E é prá chegar quem quiser Deixe a tristeza prá lá E traga o seu coração Sua presença de irmão Nós precisamos De você nesse cordão... Pode chegar Que a casa é grande E é toda nossa Vamos limpar o salão Para um desfile melhor Vamos cuidar da harmonia Da nossa evolução Da unidade vai nascer A nova idade Da unidade vai nascer A novidade...
E é prá chegar Sabendo que a gente tem O sol na mão E o brilho das pessoas É bem maior Irá iluminar nossas manhãs Vamos levar o samba com união No pique de uma escola campeã...
Não vamos deixar Ninguém atrapalhar A nossa passagem Não vamos deixar ninguém Chegar com sacanagem Vambora que a hora é essa E vamos ganhar Não vamos deixar Uns e outros melar...
Oô eô eá! E a festa vai apenas Começar Oô eô eá! Não vamos deixar Ninguém dispensar O Homem Falou
Alguns aspectos da cultura social do RN me deixam injuriado. Uma deles é a mania de estrangeirismo do nosso povo.A lógica estabelecida é de que “tudo que é de fora é melhor” e “tudo que se fez aqui é menor”.
Isso ta errado!
ANNA FERNANDEZ Semana passada, tive o prazer de conhecer uma cantora/compositora – compositora/cantora (acho a inversão dessa oredem faz a maior diferença) - potiguar que há mais de dez anos saiu do estado para tentar a sorte em palcos paulistas; o nome dela é Anna Fernandez (se pronuncia Fernandêz).
Nosso papo foi ótimo. Sentada aqui na sala da minha casa, Anna me contou um pouco sobre sua a história musical – que não é pequena - e suas experiências como artista potiguar/nordestina em São Paulo.
DESCOBERTAS São mais de 15 anos de batalha e vitórias importantes. Anna, que eu conheci através da minha tia (maior freqüentadora e incentivadora desse blog), é a única artista potiguar, que eu conheço, com um prêmio Sharp - uma espécie de Grammy brasileiro dos anos 90 -. Teve composições gravadas por artistas consagrados como Elymar Santos, Roberta Miranda, Elba Ramalho e Caju e Castanha (dupla de repentistas muito conhecida lá pelas bandas do sul) e atualmente trabalha em um cd de inéditas para ser lançado no Japão.
Em suma: uma mulher arretada!
LAR X OPORTNIDADES Apesar de considerar Anna uma vencedora em sua trajetória musical, uma coisa na sua história me entristece. Muita gente daqui – inclusive eu, até dois meses atrás - desconhece seu trabalho. Pior, sequer tem acesso a ele. As lojas não vendem os discos, a maioria das rádios não toca as músicas, o espaço para divulgação e realização de shows é restrito e a lista de “contras” continua quase que infindável.
Essa barreira entre arte e público não acontece só com Anna. É assim também com artistas e grupos talentosíssimos como Khrystal, Valéria Oliveira, Simona Talma, Perfume de Gardênia, Lane Cardoso entre outros, só para citar alguns nomes dessa geração mais nova.
Como fazer sucesso em outras aldeias se o povo da sua própria, que compartilha das mesmas referências culturais que você, não se interessa pelo seu trabalho?
Por essas e outras que eu entendo a decisão de Anna e outros artistas potiguares que escolheram fazem carreira fora do RN.
É uma pena. No fim das contas quem perde somos nós.
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Escute uma canção de Anna e tire suas próprias conclusões
Recentemente duas pessoas próximas tiveram conquistas pessoais importantes. Cada um, a sua maneira, mereceu a vitória.
Um deles, grande amigo, é um dos seres-humanos mais inteligentes que eu conheço. Ele é a prova viva de que erudição e simpatia podem, sim, conviver, juntos, sob um mesmo ego. Seu triunfo me deixa particularmente feliz, pois é o registro de sua capacidade (tantas vezes questionada por ele mesmo). Seu troféu, um emprego público, ratifica o homem que ele é!
O outro, parceiro das horas festivas, também se destaca pela inteligência. Desde (muito) cedo se mostrou prodígio nas ciências lógicas e estratégicas. Não lembro de vê-lo muitas vezes no papel de coadjuvante de sua vida. Pelo contrário, sempre atuou como protagonista (galã). Seu troféu, também um emprego público, dá maior solidez ao homem que ele pode vir a ser.
Mas nem tudo são confetes. Outro amigo, o que, dos três, mais se dedicou à batalha, (*) ficou pelo meio do caminho .
Com ele compartilho a experiência das minhas próprias derrotas. Com a cabeça no lugar e, as amarras certas nas emoções, perder foi essencial para construção dos meus muros - imprescindíveis na vida social - e conquista da maturidade que me faz um homem melhor.
Que venham outros desafios!!
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Dedicatória Dedico esse texto a todos os meus amigos, em particular a Fernando, Igor e Carlos.
Ultimamente o comentário de todas as rodas políticas do país é a pergunta feita pelo Senador José Agripino (DEM/RN) à Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, na abertura da Comissão de Infra-estrutura do Senado.
O senador Democrata tentou relacionar as mentiras contadas por Dilma na época da ditadura (período em que a petista participou da guerrilha brasileira sendo presa e torturada) às suas atitudes enquanto Ministra.
Um desastre!
DEMOCRACIA X DITADURA No afã de manchar a imagem de Dilma, que nos bastidores políticos é conhecida por sua competência administrativa, Agripino - cujo perfil político e pessoal pode ser melhor visualizado nesse texto- se esqueceu do perigo que é traçar paralelos entre ditadura e democracia, mesmo em paises como Brasil, onde esta instituição ainda engatinha, sendo, por muitas vezes, duramente questionada.
Resultado: levou uma (bela) patada!
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Veja a resposta de Dilma
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EMBATE POLÍTICO X JOGO SUJO A atitude de Agripino não tem nada haver com a dureza natural dos embates políticos - principalmente quando eles acontecem entre oposição e situação. Não passa, na verdade, de um exemplo, dos mais autênticos, do que na linguagem popular é conhecido como “jogo sujo”.
- É nesses momentos que a gente entende porque brasileiro não “dá a mínima” para a política.-
Mas política não é isso!
POLÍTICA DO COTIDIANO Política é um exercício diário e comum. Ela tem haver, essencialmente, com o bem estar coletivo;com uma vida melhor.
Ou seja, quando a gente vai falar com o síndico sobre o lixo que fica acumulado na porta do edilício, está fazendo política; quando conversa com o diretor da escola sobre a qualidade das aulas, está fazendo política; quando separa o lixo para reciclagem, também está fazendo política.
CONSCIÊNCIA E UM PAÍS MELHOR A consciência da população sobre essa política do dia-a-dia é passo fundamental na construção de um país melhor.
O resto é conseqüência.
"A política é a arte do possível. Toda a vida é política" CesarePavese
Hoje conheci Gilberto Gil. Uma alegria imensa. De todos os grandes nomes da Música Popular Brasileira sempre me senti mais próximo da obra e discurso de Gil.
Me encanta seu virtuosismo musical, suas “sacadas” como compositor e, acima de tudo, seu desprendimento artístico.
Gil vai do "luxo ao lixo" em segundos, sem nenhum pudor. Foi sambista, tropicalista, roqueiro, politizado, embarcou na onda disco, gravou forró, axé, merengue, voz e violão, eletroacústico, etc.etc.etc. Tudo com o maior sorriso no rosto e satisfação do mundo.
Sua frase mais comovente é: “eu gosto de gostar”.
Genial!
ARTE X POLÍTICA Mas quem eu encontrei hoje não foi o Gil artista, mas sim o Gilberto Gil político.
Por esse aí, confesso, eu não morria de amores. Me parecia meio aluado. Aquele tipo de pessoa que não fala coisa-com-coisa; abstrato e espiritualizado demais para o pragmatismo exigido pela política.
Me surpreendi.
(*)"Ate que nem tanto esotérico assim"
INVERTENDO PAPÉIS De repente estava em diante de um político articulado, perspicaz e antenado. Boas opiniões, idéias, idem, e discurso consistente.
Como não sobrou muita coisa para mim diante da descoberta, decidi ser eu o “aluado”.
O resultado foi essa foto aí --->
Adorei!
Foi uma ótima oportunidade de praticar a filosofia do não se leve a sério demais.
Recentemente um exemplo que eu usei para ilustrar um dos textos deste blog foi mal recebido por um dos meus leitores (que bom que eu tenho leitores!!!)
Eu falava de mistura musical e citei Luis Caldas.
Segundo meu leitor “Luiz Caldas, Rei do Axé, não é sinônimo de qualidade (...) É a mania de Axé de alguns brasileiros. A mídia condiciona a isto. ”
Essa história de “mania de axé” e "mídia condiciona" me incomodou muito - como um fiapo de manga preso entre os dentes.
Eu gosto de axé, sim. E não é (só) por causa da mídia.
LUIS CALDAS Por causa da bendita frase fui atrás de saber um pouco mais sobre Luis Caldas e descobri que sua arte não é das piores.
(*)Seu último disco é MELOSOFIA onde ele homenageia vários pensadores da humanidade.
Mais... Ele sobrevive artisticamente dos restos mortais do fricote (ritmo do pega ela aí, pega ela aí / pra que ?/ pra passar batom / que cor ? / violeta / na boca e na bochecha), e das sobras da industria do carnaval, dominada por artistas com mais dinheiro e espaço na mídia.
É reconhecidamente um grande instrumentista, e, em seu último show aqui na minha cidade, me impressionou por sua versatilidade musical.
Mas esqueçamos Luis Caldas. Não é dele que eu vim falar.
Quem está na berlinda é o axé!!!
AXÉ DE COISAS BOAS E COISAS RUINS Assim como qualquer outro gênero musical o axé tem coisas boas e coisas ruins. O grande problema desse estilo é que, por causa de sua vocação indiscutível para alegria, ele foi, mais do que qualquer outro, associado à indústria do entretenimento e carnaval.
Resultado: Quando se paga por um show de axé, compra-se também o “divertimento fácil” – e a reputação/comportamento da maioria dos consumidores desse tipo de produto.
No fundo as pessoas pagam só para “se divertir”, não para escutar a música – e (também) se divertir.
Esse tipo de "negócio" empobrece a expressão artística, mas em sí ela não é pobre. Pelo contrário, ela bebe de uma fonte cultural rica e maravilhosa, que é a cultura negra brasileira; em especial a cultura negra da Bahia.
LETRA A SERVIÇO DO RITMO Contudo o ritmo não me parece ser o maior problema na compreensão do axé, mas sim as letras.
Diferente de outros gêneros musicais as letras de axé são concebidas quase que exclusivamente em função do ritmo. Eu diria que as palavras “cantam junto” com os tambores.
Nesse processo o sentido dos textos é deixado de lado. O que predomina é a sua relação com a música (sintaxe). Por isso nada parece ter lógica. Vira um tal de “dandalunda” para cá, “maimbê” para lá, mel rimando com rapunzel para acolá, e assim vai.
Um exemplo típico desse tipo de síntese são as composições de Carlinhos Brow.
- Curioso é que quando isso é levado para MPB (os Tribalistas fizeram isso muito bem) todo mundo acha a coisa mais inovadora do mundo e bate palma entusiasmadamente -
NO FIM DAS CONTAS Resumindo; assim como a maioria das coisas na vida, o axé não pode ser avaliado a partir dos critérios do bom ou do ruim. Esse é um tipo de pensamento simplista, reducionista e incompatível com qualquer pessoa mais sensata.
É direito de quem quer que seja gostar ou não gostar do estilo. Mas entendê-lo como um tipo de música menor não é justo.
Para quem quer conhecer mais sobre o axé sobre o qual estou falando e considero a maior representação musical de uma expressão cultural recomendo ouvir as músicas de compositores como Jorge Zarath, Jauperi, Carlinhos Bronw, Alain Tavares e Gerônimo.
Uma olhada em algum DVDs de Daniela Mercury também resolve o problema!
E muito axé, para quem quiser!
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E mais fácil entender,
quando se pode ver
(*) A informação foi corrigida pelo produtor Cultural José Dias
Outro dia escutei de um cantor, cujo sucesso aconteceu no final da década de 80, início da década de 90, a seguinte frase:"a ordem mundial é misturar". Achei aquilo o máximo. Condensava tudo que eu penso sobre música e o modo como se deve fazer música. Genial!!!
O cantor era Luis Caldas.
O show do cara, para minha surpresa, não foi uma sucessão de "fricotes" (ritmo que deu fama a Luis e que tem como principal hino a música "pega ela aí, pega ela aí / pra que ? / pra passar batom / que cor? / violeta, na boca e na bochecha"), mas uma colcha de sons e ritmos bem costurada e diversa.
O repertório foi de Vivaldi (musica clássica e instrumental) a Gonzagão (forró pé-de-serra genuinamente nordestino) .
Não escutei nenhuma reclamação do público, nem mesmo daqueles que esperavam uma apresentação "mais animada".
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Algo parecido aconteceu ontem (30/04) no show de uma artista da minha terra cujo trabalho e talento são "acima da média". O nome dela é Khrystal (assim mesmo, com K, H, R e Y).
Depois de fazer um belíssimo disco que tem o coco espinha dorsal, e que foi elogiado - e bem aceito - pela crítica local e nacional, Khrystal tenta agora se libertar do rótulo de "cantora de coco" que impuseram a ela.
Para isso ela foi cantar samba!
Devo confessar que essa foi uma saída de mestre.
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Embora tenha nascido como "desabafo" de uma minoria (negra) oprimida e marginalizada, assim como o coco, o samba se fez mais popular; "desceu do morro" e caiu no gosto das massas, tendo sua "síntese original" alterada/influenciada pelos mais diferentes estilos musicais e classes sociais.
Foi dessa mistura que nasceram expressões como o Samba Canção, o Samba Rock, o Samba Soul, o Samba Enredo, o Samba Reggae e por aí vai.
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Para Khrystal, o samba, foi o lugar onde ela podia expressar mais livremente a viceralidade/intensidade que marca seu trabalho. Só que dessa vez teve gente que não gostou!
E ainda bem que não gostou.
Os artistas, principalmente os que estão "começando agora", de modo geral, têm que valorizar todo e qualquer tipo de reação do público, mesmo as negativas. Elas são a prova de que reparam no seu trabalho. Não gostar faz parte.
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Viva um país que, como o Brasil, tem matéria-prima musical suficiente para suprir as mais diversas e plurais misturas, sem que isso implique em perda de identidade cultural. A miscigenação é a nossa principal marca, e deveria ser nosso maior orgulho. É ela que nos faz tão diferentes, e tão únicos.
Viva também artistas como Khrystal, que mesmo não sendo unânimes, tem coragem e competência de não apelar para rótulos e imprimirem sua marca pessoal na música sem soarem repetitivos ou vazios. Viva!!!
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Sobre o show de Khystal, tirem suas próprias conclusões