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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

De volta - Os sonhos não envelhecem


2009 já começou dizendo a que veio: será um ano de [muitas] conceções a meu humor, que anda cada dia mais instável e difícil.

Leoninos são "caxão".

Enfim, que seja.

Nesse turbilhão de emoções, retomo as atividades do blog.

Nesse hiato de alguns meses sem postar (nem sei quantos - e nem quero contar também), muito som passou pelos meus ouvidos [e muito trabalho pelo minhas mãos].

Viciei e desviciei de várias coisas. Começei e (não) terminei várias leituras, como de praxe.
No entanto minha primeira "dica" de 2009 é um livro.

O livro se chama "Os sonhos não envelhecem".

O autor é Mácio Borges, irmão de Lô Borges e um dos principais compositores/"atores" de um movimento musico-cultural, pelo qual eu sempre fui encantado: o Clube da Esquina.

O "Sonhos não Envelhecem", é uma espécie de dicionário para quem quer entender um pouco mais sobre o Clube e seu principal integrante; Milton Nascimento.

O que mais fascina é o tom humano do texto.

A cada capítulo, através da narrativa e vida de Márcio Borger, o leitor vai conheçendo um pouco dos sentimentos e sensações que inspiraram cada uma das canções e momentos que fizeram o Clube da Esquina.

Belíssimo.


sábado, 11 de outubro de 2008

Antena Musical - Um Dia Desse


Ao contrário do que muita gente pensa gostar de música não é um exercício fácil. É preciso conciliar um monte de estímulos e permitir que uma coisa complicadíssima de descrever chamada "gostar" dê um veredito.

Se estivermos muito condicionados por um ou outro estímulo é possível que sejamos injustos.

Foi assim que eu aprendi a gostar de música e é assim que me apaixonei por dois gênios controversos da música brasileiros chamados João Donato e Carlinhos Brown.

O que os dois tem em comum? O virtuosismo ritimico.

Os dois são mestres em "temperar" as canções. O primeiro atraves da vocação harmônica do piano e o segundo pela malemôlencia intensa dos tambores.

Recentemente escutando uma rádio que eu adoro do Rio de Janeiro, a MPB FM, o swing de uma canção me arrebatou o coração (ou seriam os quadris?).

Descobri que a canção, interpretada por, para minha surpresa, Emílio Santiago, o homem das "Aquarelas do Brasil", se chama Um Dia Desses.

Maravilhosa!

Quando fui procurar saber mais sobre a música, advinha quem eram os autores: João Donato e Carlinhos Brown.

Dessa dupla não podia ter pintado coisa ruim.

É minha dica.

Deliciem-se!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Quando eu falo niguém me dá ouvidos

Faz tempo que eu ando dizendo por aí que o disco Leve só as Pedras, último trabalho de Valéria Oliveira, grande artista da minha terra, é coisa fina, de nível nacional (ou mais).

Niguém me deu atenção.

Eis que Nelson Mota, reconhecido produtor musical nacional, que já trabalhou com artistas como Elis Regina, Marisa Monte, Daniela Mercury, etecetera, etecetera e etecetera, falou sobre o dito cujo por esses dias em seu programa de Rádio, o Sintonia Fina, transmitido em vários estados do país.

Segundo Nelson "Vem de Natal, Rio Grande do Norte, uma das boas revelações de cantora dos últimos anos, que já rolou aqui no SF com ótima resposta. Ela se formou ao som de Clara Nunes e Elis Regina e é fã de Regina Spektor, e agora lança o seu segundo disco, onde reafirma as suas qualidades de intérprete, mostrando um estilo discreto mas cheio de sutilezas e sua busca por um repertório de qualidade. Um ótimo exemplo é “O Último Pôr-do-sol”, de Lenine e Lula Queiroga."

Só uma retificação à nota de Nelson Mota. O disco Leve Só as Pedras não é o segundo cd de Valéria, mas sim o quarto. Antes dele vieram o Impressões, o Lanterna do Futuro e o Imbalança.

Quem quiser saber mais sobre Valéria Oliveira pode acessar o site da artista no endereço http://www.valeriaoliveira.mus.br/.

Vale a pena conferir.

Eis uma palhinha. O nome da canção é Dores Pequenas

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Antena Musical - Mariene de Castro



Nesses tempos de "grampolândia", é bom que o povo brasileiro lembre-se de que ainda tem do que se orgulhar - principalmente quando o assunto é cultura. É uma forma de não deixar a alma esmaecer, nem perder a esperança.

Um desses motivos de orgulho atende pelo nome de Mariene de Castro.

Negra, baiana, de família humilde, Mariene de Castro descobriu-se cantora ainda na infância. "Na minha família todo mundo tocava algum instrumento ou cantava" explica ela. Por isso aos 12 anos foi estudar música.

Profissionalmente, começou a vida artistíca, como uma boa parte dos artistas baianos da "nova geração", em cima de trios elétricos, fazendo vocais de apoio para Timbalada, Márcia Freire, Carlinhos Brown. Mas logo sua voz iria alçar vôos mais altos e mais bonitos.

Descoberta por produtores franceses (provando que infelizmente, em Terra de Papagaios, santo de casa não faz milagre sozinho) Mariene foi dar uma de canarinho no estrangeiro.

De volta ao Brasil consegue gravar, em 2005, o belíssimo disco "Abre Caminho".

No disco, com propriedade de mestra, Mariene extraí o que há de melhor da cultura negra brasileira, sem apelar para as fórmulas pré-estabelecidas pela indústria.

Assim ela empresta sua malemolencia e potência vocal à gêneros como coco, samba de roda e outros ritmos do folclore nordestino, além de fazer regravações (ou seriam melhoras?) em canções já conhecidas do público brasileiro como Planeta Água.

Mariene, e seu Abre Caminho, é a prova de que é possível respeitar e ser influênciado por aspectos musicais da nossa cultura que a indústria fonográfica chama, maldosamente, de folclóricos, de uma forma contemporânea e acessível.

Ave Mariene!

* A música no Player é um Pout-pourri com as canções Vem para Minha Aldeia e Lenço Branco.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Absurdo - Roubaram os instrumentos e cenário da Rita Lee


Tem coisa que a gente lê e não acredita. A que ponto chegamos?

"A Poladian Produções comunica que no domingo, dia 24 de agosto, o caminhão com equipamentos e instrumentos musicais do show PicNic, de Rita Lee, foi roubado na altura do Km 17 da Raposo Tavares.

A artista fez show em Curitiba no sábado, 23 de agosto. Os equipamentos, cenário do show e instrumentos musicais estavam voltando para São Paulo.

O motorista foi rendido por 3 motoqueiros em duas motos e um tempra, com mais 3 ocupantes. Sob ameaça de revolver, o motorista foi obrigada a entrar no carro, que rodou aproximadamente 2 horas.

O mesmo foi deixado na Estrada de Itapecerica.

O caminhão foi encontrado em travessa sem saída da R. Alberto Giosa, em Embu das Artes.

Até o momento, nenhuma informação foi recebida sobre o paradeiro dos equipamentos e instrumentos."

Sei não!!!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Antena Musical - A Música em Mim

No início do ano recebi um presente maravilhoso de uma grande amiga: um cd de música.

Eu adoro música; vivo música e esse presente teve um sentido especial. Marcou o início de um novo momento da minha vida; um momento que vivo até hoje e que pretendo curtir por um longo tempo.

Entre as músicas do cd, uma especial me comoveu. "A música em Mim" de Lucina e Lenita Lopes, cantada po Fred Martins e Zélia Duncan.

A canção soou como uma espécie de tradução.

Comovente.

Merecia o registro

A música em Mim
Lucina e Lenita Lopes

Há música em mim quando acordo cedo
A música em mim finge não ter medo
Há música em mim quando dói o dente
A música em mim age normalmente
A música em mim tenta ser discreta
Há música em mim quando fico quieta

Há música em mim no congestionamento
A música em mim corre mais que o tempo
Trem bala na sala do meu apartamento
A música em mim refaz o dia

A música em mim me aplaude toda vez que eu sigo em frente
A música em mim parece um presente


*Ps. O nome da amiga é Thaliane Almeida

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Antena Musical -- Funk como Le Gusta

Tem gente que só associa a influencia negra na música brasileira a ritmos como samba.

Não é bem assim.

O swing da turma de pele escura também inspirou outros estilos musicais ( genuinamente e não genuinamente brasileiros)

O Funk é um desses casos.

Criado nos Estados Unidos em meados dos anos trinta, a palavra Funk surgiu como um adjetivo que descrevia uma maneira de tocar mais lenta, solta e principalmente mais dançante.

- Now, put some stank funk on it!", (algo como "coloque mais 'funk' nisso!") diziam os jazzistas daquela época.

Mais tarde esse "jeito de tocar" cresceu, emancipou-se e se tornou ritmo próprio.

O FUNK NO BRASIL
No ínicio dos anos 70, o Funk desembarca em solo brasileiro, mais fortemente no Rio de Janeiro.

"De braços abertos sobre a Guanabara" o ritmo sobe os morros cariocas e ganha características particulares, ligadas a cultura e a malandragem carioca. (Características negras, principalmente)

O Som fica mais "malemolente" e percussivo.

- Coisa de "cão vira-lata" que nem a gente.

Tim Maia, Sandra de Sá, Banda Back Rio são os grandes representantes do Funk Brazuca dessa época.

Mas o Funk que me chamou atenção foi o de uma turma mais nova: o Funk como le gusta.


No meio dessa sexualidade exagerada que virou o funk nos anos 2000, os caras resgataram o que o ritmo tem de melhor; esse jeito mais lento, solto e principalmente mais dançante de tocar. Nada haver com o créu.


Fica mais claro ouvindo.


domingo, 22 de junho de 2008

Antena Musical - Grávida

Eu tô grávido!!!

Calma! não é no sentido literal - e natural - da palavra(é claro). Isso ainda é humanamente impossível.

(Que pena! tenho para mim que a oportunidade de gerar uma vida dentro de sí é uma das 8 maravilhas do mundo.)

Nesse caso trata-se apenas da mágica que é poder reinventar os sentidos das palavras. Metáfora.

AMIGO É DE CASA
Essa semana estava escutando o disco ao vivo que Zélia Duncan e Simone gravaram no Ibirapuera em outubro do ano passado (um grande disco diga-se de passagem), - leia mais sobre o cd - e diante da quantidadade de sentidos que o compositor, Arnaldo Antunes, arranjou para a palavra "Grávida" - uma das músicas interpretada pelas duas e originalmente gravada por Marina Lima - também engravidei.

Explico: tô grávido, pois tenho gestado (e essa palavra descreve precisamente o processo sobre o qual eu estou falando) muitas déias, conceitos e atitudes. Algumas delas compartilho com vocês aqui no blog.

Esse ato de "engravidar", está sempre impregnado da sanidade que me é peculiar.

Alías essa caracteristica, atualmente, tem sido minha benção e meu fardo.

Coisas da vida!!!

Vamos à música, que é o que importa agora!

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Grávida
Arnaldo Antunes


Eu tô grávida
Grávida de um beija-flor
Grávida de terra
De um liquidificador
E vou parir
Um terremoto, uma bomba, uma cor
Uma locomotiva a vapor
Um corredor

Eu tô grávida
Esperando um avião
Cada vez mais grávida
Estou grávida de chão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Dar à luz

Eu tô grávida
De uma nota musical
De um automóvel
De uma árvore de Natal
E vou parir
Uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional
Um cartão postal

Eu tô grávida
Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão
E vou parir
Sobre a cidade
Quando a noite contrair
E quando o sol dilatar
Vou dar a luz


-- x --

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Antena Musical - Daniela Mercury

No Antena Musical da semana passada, falei sobre uma das minhas paixões musicais, Elis Regina; no desta semana, vou falar sobre outra: Daniela Mercury.

Daniela Mercuri (o “y” veio depois) de Almeida surgiu no cenário da música brasileira no inicio da década de 90, mais precisamente entre 1992 e 1993.

Misturando ritmos e toadas afrobaianas com coreografias acrobáticas e um conceito de show-espetáculo, foi uma das percussoras de um gênero músical que até hoje “dá muito o que falar”: o axé music.

Até a metade da década de 90, Daniela Mercury fez muito sucesso no Brasil e alguns países da América Latina como Argentina e Chile, vendendo milhões de discos. Em alguns desses países é recorde de público e vendas até hoje. Atualmente, tem uma projeção menor quando comparada a outras cantoras de axé como Ivete Sangalo e Cláudia Leitte.

Mas Daniela Mercury nunca foi unanimidade nem mesmo no auge da popularidade ou dentro do axé, estilo que ajudou a difundir e onde é considerada "rainha".

EXPLICAÇÕES/MOTIVOS
- Quem gosta de axé e não gosta de Daniela costuma dizer que seu trabalho é “cabeça” demais ou arranja motivos pessoais para não gostar dela.

- Quem não gosta nem de um nem de outro, geralmente, taxa Daniela de presunçosa (ou perdida) por causa da quantidade de referências e linguagens estéticas presentes nos seu trabalho; e o axé de medíocre, principalmente, por causa da forte ligação do estilo com o carnaval e a falta de comprometimento com conteúdo semântico e/ou seriedade das letras.

- Quem só gosta de um ou de outro vive tentando separar as duas coisas.

- E quem gosta dos dois, como eu, na maioria das vezes, ganha a pecha de eclético (no mal sentido da palavra) sendo visto como uma pessoa sem critério musical; capaz de gostar de tudo. (Eu considero isso uma virtude. Tem gente que acha falta de personalidade)

Eu compreendo.

A arte de Daniela não se encaixa facilmente em nenhum rótulo. É tudo e é nada; é isso e é aquilo; simultaneamente.

Sua discografia inclui gravações de sambas, ijexás, merengues, rap, bossa-nova, manguebeat, musica eletrônica, clássica, jazz, soul, rock, MPB, R&B, musicas em espanhol, japonês, inglês, canções de Lenine, Chico César, Vanessa da Mata, Herbert Viana, Marcelo Yuca, Vinicius de Morais, Ary Barroso, Jorge Benjor, Roberto Carlos, Carlinhos Brown, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Adriana Calcanhoto, composições próprias, etc, etc, etc.

Essa versatilidade faz com que pessoas como eu, que gostam do trabalho Daniela Mercury percam um tempo danado justificando suas escolhas musicais.

Á aqueles que vivem a me pedir explicações ou a me olhar com rabo do olho, proponho um desafio:

1 - Você que não gosta nem de axé e nem de Daniela, tente colocar de lado o pré-conceito e escute essa canção composta por Lenine especialmente para La Mercury. Talvez você entenda o que ela pretende com a Música (assim mesmo com M maiúsculo).

2 - Você que gosta de axé, mas não de Daniela, assita o vídeo e me responda se é possível não sentir minimamento tentado a sair pulando de alegria, como em época ou festa de carnaval.

3 – Você que só gosta de um dos dois, escute a música e veja o vídeo e ao invés de catar diferenças tente achar intercessões.

4 - Aos outros, aproveitem.

Sou De Qualquer Lugar
Lenine



Trio Metal e Rapunzel

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Antena Musical - Olhos Abertos

Todo mundo que me conheçe, pelo menos um poquinho, sabe que uma das minhas paixões musicais responde (ou respondia) pelo nome de Elis Regina de Carvalho Costa.

Nesse Antena musical vou mostrar uma jóia rara (e quase desconhecida) do seu repertório.

Trata-se de uma canção de Zé Rodrix (saiba mais sobre Zé Rodrix) e Guttemberg Guarabira chamada Olhos Abertos, gravada pela "Pimentinha" em 1972 (confira discografia completa de Elis), num dos seus melhores discos.

O grande "lance" de Olhos Abertos é a leveza que a canção apresenta; tão incomum as interpretações de Elis, normalmente muio densas.

Não se trata de uma leveza boba, associada a infertilidade musical, mas sim uma leveza espiritual, madura; parecida com aquela que se sente quando está de bom-humor; de bem com a vida.

Difícil explicar; melhor sentir!!




Olhos Abertos
Zé Rodrix / Guttenberg Guarabyra


Atravessando uma ponte de noite, no meio da chuva
Cercada pelo silêncio daquela cidade do interior
Depois da ponte uma estrada de terra, molhada pela chuva
Cercada pelo silêncio e sem nenhum pedaço de amor

Vendo os olhares desertos de tantas pessoas antigas
Tantas pessoas amigas querendo um cigarro e um carinho
Gente que puxa uma briga na estrada, com os olhos brilhando
Precisa só de um abraço, bem forte e bem dado

E eu quero encontrar as pessoas
De mãos e olhos abertos
Sem me preocupar com dinheiro e posição

Eu preciso encontrar as pessoas
Ficar de mãos dadas com elas
Conversar com a boca e os olhos do coração

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Antena Musical - Conversa de Botas Batidas

Tem coisa melhor do que envelhecer com amor?

Conversa de Botas Batidas, é uma das melhores canções do disco Ventura (2003) dos Los Hermanos. O autor da letra é Marcelo Camelo.

O texto é baseado em uma história real. A historia de um casal que se reencontra na velhice, decidindo assumir uma paixão juvenil.

Com medo de serem julgados, eles começam a se encontrar, às escondidas, num hotel.

Certo dia esse hotel, começa a desabar. Antes do desastre, um dos funcionários do hotel tenta salvar dos dois, batendo na porta do quarto, mas eles não abrem.

Não se sabe se eles estavam dormindo ou se preferiram morrer, ali, juntos, sem ter que esconder mais de ninguém aquele amor.

Marcelo (inteligentemente) preferiu a segunda versão. Fez uma canção simulando uma conversa entre os dois antes do momento final. O engraçado é que a música não fala de mágoa nem de rancor. A morte não soa pesada. Pelo contrário ela é cenário para atuação do artista principal: o amor.

O resultado é esse aí!


Conversa De Botas Batidas
Marcelo Camelo

- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar
- Veja você, onde é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder...
- E se amar, se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
e agora está de bem

Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer
que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
vai cair




segunda-feira, 19 de maio de 2008

“Descreves tua aldeia e serás universal” - Tolstoí

Alguns aspectos da cultura social do RN me deixam injuriado. Uma deles é a mania de estrangeirismo do nosso povo. A lógica estabelecida é de que “tudo que é de fora é melhor” e “tudo que se fez aqui é menor”.

Isso ta errado!

ANNA FERNANDEZ
Semana passada, tive o prazer de conhecer uma cantora/compositora – compositora/cantora (acho a inversão dessa oredem faz a maior diferença) - potiguar que há mais de dez anos saiu do estado para tentar a sorte em palcos paulistas; o nome dela é Anna Fernandez (se pronuncia Fernandêz).

Nosso papo foi ótimo. Sentada aqui na sala da minha casa, Anna me contou um pouco sobre sua a história musical – que não é pequena - e suas experiências como artista potiguar/nordestina em São Paulo.

DESCOBERTAS
São mais de 15 anos de batalha e vitórias importantes. Anna, que eu conheci através da minha tia (maior freqüentadora e incentivadora desse blog), é a única artista potiguar, que eu conheço, com um prêmio Sharp - uma espécie de Grammy brasileiro dos anos 90 -. Teve composições gravadas por artistas consagrados como Elymar Santos, Roberta Miranda, Elba Ramalho e Caju e Castanha (dupla de repentistas muito conhecida lá pelas bandas do sul) e atualmente trabalha em um cd de inéditas para ser lançado no Japão.

Em suma: uma mulher arretada!

LAR X OPORTNIDADES
Apesar de considerar Anna uma vencedora em sua trajetória musical, uma coisa na sua história me entristece. Muita gente daqui – inclusive eu, até dois meses atrás - desconhece seu trabalho. Pior, sequer tem acesso a ele. As lojas não vendem os discos, a maioria das rádios não toca as músicas, o espaço para divulgação e realização de shows é restrito e a lista de “contras” continua quase que infindável.

Essa barreira entre arte e público não acontece só com Anna. É assim também com artistas e grupos talentosíssimos como Khrystal, Valéria Oliveira, Simona Talma, Perfume de Gardênia, Lane Cardoso entre outros, só para citar alguns nomes dessa geração mais nova.

Como fazer sucesso em outras aldeias se o povo da sua própria, que compartilha das mesmas referências culturais que você, não se interessa pelo seu trabalho?

Por essas e outras que eu entendo a decisão de Anna e outros artistas potiguares que escolheram fazem carreira fora do RN.

É uma pena. No fim das contas quem perde somos nós.

-- x --

Escute uma canção de Anna e tire suas próprias conclusões

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Em defesa do Axé

Recentemente um exemplo que eu usei para ilustrar um dos textos deste blog foi mal recebido por um dos meus leitores (que bom que eu tenho leitores!!!)

Eu falava de mistura musical e citei Luis Caldas.

Segundo meu leitor “Luiz Caldas, Rei do Axé, não é sinônimo de qualidade (...) É a mania de Axé de alguns brasileiros. A mídia condiciona a isto. ”

Essa história de “mania de axé” e "mídia condiciona" me incomodou muito - como um fiapo de manga preso entre os dentes.

Eu gosto de axé, sim. E não é (só) por causa da mídia.

LUIS CALDAS
Por causa da bendita frase fui atrás de saber um pouco mais sobre Luis Caldas e descobri que sua arte não é das piores.

(*)Seu último disco é MELOSOFIA onde ele homenageia vários pensadores da humanidade.

Mais...
Ele sobrevive artisticamente dos restos mortais do fricote (ritmo do pega ela aí, pega ela aí / pra que ?/ pra passar batom / que cor ? / violeta / na boca e na bochecha), e das sobras da industria do carnaval, dominada por artistas com mais dinheiro e espaço na mídia.

É reconhecidamente um grande instrumentista, e, em seu último show aqui na minha cidade, me impressionou por sua versatilidade musical.

Mas esqueçamos Luis Caldas. Não é dele que eu vim falar.

Quem está na berlinda é o axé!!!

AXÉ DE COISAS BOAS E COISAS RUINS
Assim como qualquer outro gênero musical o axé tem coisas boas e coisas ruins. O grande problema desse estilo é que, por causa de sua vocação indiscutível para alegria, ele foi, mais do que qualquer outro, associado à indústria do entretenimento e carnaval.

Resultado: Quando se paga por um show de axé, compra-se também o “divertimento fácil” – e a reputação/comportamento da maioria dos consumidores desse tipo de produto.

No fundo as pessoas pagam só para “se divertir”, não para escutar a música – e (também) se divertir.

Esse tipo de "negócio" empobrece a expressão artística, mas em sí ela não é pobre. Pelo contrário, ela bebe de uma fonte cultural rica e maravilhosa, que é a cultura negra brasileira; em especial a cultura negra da Bahia.

LETRA A SERVIÇO DO RITMO
Contudo o ritmo não me parece ser o maior problema na compreensão do axé, mas sim as letras.

Diferente de outros gêneros musicais as letras de axé são concebidas quase que exclusivamente em função do ritmo. Eu diria que as palavras “cantam junto” com os tambores.

Nesse processo o sentido dos textos é deixado de lado. O que predomina é a sua relação com a música (sintaxe). Por isso nada parece ter lógica. Vira um tal de “dandalunda” para cá, “maimbê” para lá, mel rimando com rapunzel para acolá, e assim vai.

Um exemplo típico desse tipo de síntese são as composições de Carlinhos Brow.

- Curioso é que quando isso é levado para MPB (os Tribalistas fizeram isso muito bem) todo mundo acha a coisa mais inovadora do mundo e bate palma entusiasmadamente -

NO FIM DAS CONTAS
Resumindo; assim como a maioria das coisas na vida, o axé não pode ser avaliado a partir dos critérios do bom ou do ruim. Esse é um tipo de pensamento simplista, reducionista e incompatível com qualquer pessoa mais sensata.

É direito de quem quer que seja gostar ou não gostar do estilo. Mas entendê-lo como um tipo de música menor não é justo.

Para quem quer conhecer mais sobre o axé sobre o qual estou falando e considero a maior representação musical de uma expressão cultural recomendo ouvir as músicas de compositores como Jorge Zarath, Jauperi, Carlinhos Bronw, Alain Tavares e Gerônimo.

Uma olhada em algum DVDs de Daniela Mercury também resolve o problema!

E muito axé, para quem quiser!

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E mais fácil entender,
quando se pode ver



(*) A informação foi corrigida pelo produtor Cultural José Dias

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Mestiços, com orgulho

Outro dia escutei de um cantor, cujo sucesso aconteceu no final da década de 80, início da década de 90, a seguinte frase:"a ordem mundial é misturar". Achei aquilo o máximo. Condensava tudo que eu penso sobre música e o modo como se deve fazer música. Genial!!!

O cantor era Luis Caldas.

O show do cara, para minha surpresa, não foi uma sucessão de "fricotes" (ritmo que deu fama a Luis e que tem como principal hino a música "pega ela aí, pega ela aí / pra que ? / pra passar batom / que cor? / violeta, na boca e na bochecha"), mas uma colcha de sons e ritmos bem costurada e diversa.

O repertório foi de Vivaldi (musica clássica e instrumental) a Gonzagão (forró pé-de-serra genuinamente nordestino) .

Não escutei nenhuma reclamação do público, nem mesmo daqueles que esperavam uma apresentação "mais animada".

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Algo parecido aconteceu ontem (30/04) no show de uma artista da minha terra cujo trabalho e talento são "acima da média". O nome dela é Khrystal (assim mesmo, com K, H, R e Y).

Depois de fazer um belíssimo disco que tem o coco espinha dorsal, e que foi elogiado - e bem aceito - pela crítica local e nacional, Khrystal tenta agora se libertar do rótulo de "cantora de coco" que impuseram a ela.


Para isso ela foi cantar samba!

Devo confessar que essa foi uma saída de mestre.

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Embora tenha nascido como "desabafo" de uma minoria (negra) oprimida e marginalizada, assim como o coco, o samba se fez mais popular; "desceu do morro" e caiu no gosto das massas, tendo sua "síntese original" alterada/influenciada pelos mais diferentes estilos musicais e classes sociais.

Foi dessa mistura que nasceram expressões como o Samba Canção, o Samba Rock, o Samba Soul, o Samba Enredo, o Samba Reggae e por aí vai.

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Para Khrystal, o samba, foi o lugar onde ela podia expressar mais livremente a viceralidade/intensidade que marca seu trabalho.

Só que dessa vez teve gente que não gostou!


E ainda bem que não gostou.

Os artistas, principalmente os que estão "começando agora", de modo geral, têm que valorizar todo e qualquer tipo de reação do público, mesmo as negativas. Elas são a prova de que reparam no seu trabalho. Não gostar faz parte.

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Viva um país que, como o Brasil, tem matéria-prima musical suficiente para suprir as mais diversas e plurais misturas, sem que isso implique em perda de identidade cultural.

A miscigenação é a nossa principal marca, e deveria ser nosso maior orgulho. É ela que nos faz tão diferentes, e tão únicos.

Viva também artistas como Khrystal, que mesmo não sendo unânimes, tem coragem e competência de não apelar para rótulos e imprimirem sua marca pessoal na música sem soarem repetitivos ou vazios.

Viva!!!


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Sobre o show de Khystal,
tirem suas próprias conclusões


sexta-feira, 11 de abril de 2008

Tô sambista. Com muito orgulho.


De uns tempos para cá o som dos tantãs, cuícas, banjos e cavaquinhos têm me chamado mais atenção do que o de costume.

Sempre associei a música desses instrumentos a algo "bem brasileiro" (eu adoro me sentir "bem brasileiro" - pelo menos musicalmente). Mas minha afinidade com o samba, em especial o samba carioca, sempre foi menor.

Era algo parecido com aquelas mulheres exuberantes, que você admira de longe, mas tem medo de se aproximar porque pensa que é "areia demais para o seu caminhão".

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Para complicar, sou de uma geração em que samba era sinônimo de pagode. Pior, de pagode ruim.

Não consigo “tirar da cabeça” as apresentações dominicais, em programas de auditório, de grupos como Molejo, Travessos, Soweto e CIA, com suas roupas americanizadas, seus cabelos tingidos e suas coreografias de “para frente, e para trás".

Alguma coisa ali estava fora de lugar!

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Mas a história está mudando. Parece que, pouco a pouco, as peças estão voltando a se encaixar.

A MPB vive um momento (re)valorização do samba; do samba bom. Muitos artistas que sobrevivem deste gênero tem reaparecido na mídia - Alcione e Beth Carvalho são alguns exemplos - e outros, autores de uma sonoridade mais "pop", como Maria Rita, Marisa Monte e Roberta Sá, estão "se entendendo" com a harmonia da música dos "palitos de fósforo".

Correndo por fora, alguns dos bons compositores sambistas estão tendo mais espaço para mostrar seu trabalho. É o caso de Arlindo Cruz – por quem estou musicalmente apaixonado, e cujo novo disco (Sambista Perfeito) foi o motivo deste texto -, Luis Carlos, Sombrinha, Jorge Aragão e outro bocado de gente boa.

E ainda tem as misturas de Seu Jorge, Marcelo D2, bandas de rock independente etc.

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E assim, o samba volta “pro seu cantinho”. Aquele lugar onde nasce a alegria; a vontade de compartilhar; de partilhar; de se divertir; de ser feliz coletivamente; de estar vivo; de experimentar “a alegria, ainda que impregnada de tristeza” como diz Daniela Mercury.

O Samba pressupõe “turma” e isso é o que mais me encanta nele.

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“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. Ou é ruim da cabeça, ou doente do pé”
SAMBA DA MINHA TERRA - João Gilberto

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Dedicatórias
Este texto é especial para Leonardo e amigos que nos últimos tempos tem entupido meus ouvidos de todos os tipos, formas, gêneros, cores, e tamanhos de samba. Um som na maioria das vezes questionável, mas impregnado com a boa vontade típica do espírito do samba.